domingo, 16 de fevereiro de 2025

Vita Christi – Do denário diário – Ludolfo da Saxônia, O.Cart.

 


E como não basta abandonar tudo o que dissemos, se o homem se detém no caminho e não persevera, o Senhor acrescenta estas palavras, para que não caiamos na apatia, após um bom começo: “Os últimos serão os primeiros, e os primeiros os últimos”. De fato, muitos sobem e descem de um estado para outro, ora melhor, ora pior. Há fervorosos que se esfriam depois e corações frios que de repente se aquecem. Existem aqueles cujos começos são obras de perfeição por excelência, mas que se entregam a frieza contra o amor divino, preguiçosos em operar o bem e em fazer boas obras, escorregam até cair completamente no vício. Outros, ao contrário, que começaram tardiamente e com indiferença, fazem o bem com tanto fervor que superam, por seus méritos, aqueles que pareciam lhes preceder. Assim, aqueles que foram os primeiros ao começar, tornam-se os últimos ou até desaparecem, devido à falta de perseverança. Vejam Judas, o apóstolo, que se tornou apóstata, e o ladrão na cruz que se tornou confessor de Cristo. Vejam também os judeus e os gentios. Os judeus foram os primeiros chamados e serão os últimos convertidos. O contrário aconteceu com os gentios. Assim, os últimos pela humildade são os primeiros em glória e os primeiros pela soberba são, finalmente, os últimos na abjeção. Muitos que são desprezados neste mundo serão glorificados no outro, mas muitos outros que os homens glorificam serão finalmente condenados.

Jesus confirma esta verdade ao nos apresentar uma parábola, na qual nos ensina a fugir da ociosidade e a abraçar o trabalho. Esta parábola foi dirigida aos seus discípulos, porque é sobretudo aos prelados que compete trabalhar no campo do Mestre. Mas, para mostrar o que a parábola encerra, é preciso observar seis pontos:

I. O homem, pai de família, é Deus, que se fez homem aqui na terra, por causa de seu afeto por nós. Deus é chamado pai de família em sua qualidade de Criador. Sua Providência governa tudo no universo, assim como um pai de família governa tudo em sua casa. 

II. Os trabalhadores são os pregadores do Evangelho e todos aqueles que vivem de acordo com seus preceitos. Hoje em dia, um grande número de pregadores são trabalhadores apenas em palavras, porque não praticam.

III. O denário é a vida eterna prometida aos trabalhadores do Senhor.

IV. A vinha, no ponto de vista alegórico, é a Igreja, segundo São Gregório, mas, moralmente falando, a vinha é também a alma, segundo São Basílio, e a justiça absoluta, segundo São João Crisóstomo.

V. As horas marcam as diversas idades do mundo ou até mesmo dos homens.

VI. O procurador da vinha é o Cristo, como homem, que é também, em sua qualidade de Deus, o pai de família, juntamente com seu Pai.

Jesus lhes disse, portanto: “O reino dos céus”, ou seja, a Igreja, ou a assembleia dos justos que vivem de acordo com a justiça, “é semelhante a um homem, pai de família”, ou seja, ao Deus de toda a criação. (Nesta parábola, trata-se mais de pessoas do que de coisas, e estas palavras significam que o que a Igreja faz na terra é semelhante ao que faz um homem, pai de família). “Que saiu” para se manifestar e exercer sua bondade afora. Como diz São Gregório, quando um homem não é conhecido, é como se não existisse, sua existência começa no momento em que se manifesta. Ao romper da manhã, ou seja, na primeira era do mundo, começando com Adão e terminando com Noé; saiu para contratar os operários, ou seja, os homens justos, seus servos, capazes de revelar seu nome a outros; para sua vinha, ou seja, para a Igreja militante, cujos ramos são os justos, desde o primeiro, que se chamava Abel, até o último dos eleitos. Segundo São João Crisóstomo, contratar os operários para sua vinha é recrutar os bons para as obras de justiça, e então a vinha é a justiça, da qual todas as virtudes são os ramos. Ou, segundo São Basílio, pela vinha entende-se a alma ou a consciência, da qual devemos nos ocupar cortando os ramos luxuriantes da concupiscência, rejeitando as pedras da soberba e arrancando os espinhos da avareza. Pela vinha, pode-se entender ainda a penitência, por meio da qual são contratados, em várias horas, os trabalhadores trazidos de volta a Deus: uns na época de sua infância, outros na juventude, e outros ao final da vida. Portanto, o pai de família ou o Senhor sai e se manifesta a nós como mestre, quando chama, por meio de incessantes convites, os trabalhadores, não em palavras, pois as ações são ainda mais preferíveis com o objetivo de multiplicar as boas obras a serem realizadas em sua vinha. Adão foi primeiramente colocado no paraíso e dele foi banido por sua culpa e por desobediência. Os judeus, o povo privilegiado de Deus, foram rejeitados. Hoje estamos, diante de Deus, na posição especial dos judeus, e seremos rejeitados como eles se não vigiarmos nossas ações.

         Tendo acordado com os operários de lhes dar um denário diário, ele os enviou à sua vinha. Este acordo não é outra coisa senão a promessa de vida eterna. Chama-se denário diário, pois o pacto da vida eterna é prometido como recompensa pelo trabalho, sendo que essa vida eterna é chamada de denário. Primeiramente, pela razão do nome, pois o denário é assim chamado por causa dos dez (decem), uma vez que, antigamente, valia dez moedas comuns. Nesse caso, significa o preço pelo uso e observância do Decálogo; e por isso, essa vida é chamada de denário, porque é dada pela observância do Decálogo. Em segundo lugar, pela razão da figura, porque o denário tem a figura esférica e redonda, onde não se pode encontrar princípio nem fim; com isso se significa a eternidade da vida e a plena posse da eternidade. Em terceiro lugar, pela razão da imagem, pois no denário está impressa a imagem do rei; com isso, se aponta a conformidade plena da alma com Deus, já que a imagem de Deus é gravada nos bem-aventurados pela assimilação a Deus e pela transformação nele. Em quarto lugar, pela razão da inscrição, que indica o pleno conhecimento e a compreensão da verdade, o qual será dado aos bem-aventurados. E este denário é chamado de diário, tanto porque toda a vida do homem, assim como toda a vida presente, é considerada como um único dia, no qual nunca se deve desistir de uma boa ação; quanto porque, só ao que trabalha no dia da graça, e não à noite (a estes será dada a recompensa da culpa) serão compensados no dia da glória. Ele os enviou à sua vinha, assim como enviou, na antiga Lei, profetas para chamar os homens à fé em um Redentor, e os convidou por meio deles a viver segundo a justiça e as práticas da virtude. E saindo à terceira hora, ou seja, mostrando-se uma segunda vez (época de Noé a Abraão), viu com tristeza (era pelos olhos de sua misericórdia) outros que estavam sem fazer nada na praça pública, e convidando-os a ir à sua vinha, prometeu-lhes uma recompensa. Segundo São João Crisóstomo, o fórum ou a praça pública é o mundo com suas calúnias, suas injustiças, suas disputas, suas dificuldades de toda sorte, o mundo onde tudo está à venda. Nesse fórum do mundo, as almas estão à venda. Ali estão dois mercadores, Deus e o demônio. Há aqueles que são atingidos pela cegueira ao ponto de vender sua alma por um preço baixo, ou seja, por um prazer fútil e passageiro: são os luxuriosos e os homens escravizados pelo ventre; há aqueles que a vendem por honras e glória: são os soberbos e os vaidosos; alguns a vendem por dinheiro e por fortuna em geral, como os avarentos e os ladrões. Façamos o contrário e vendamos nossas almas a Cristo, que nos resgatou pelo preço de seu precioso sangue. A ociosidade é a omissão de um trabalho devido.

Segundo São João Crisóstomo, os pecadores são mortos, não ociosos aos olhos de Deus. Aquele que é escravo do demônio está morto. Aquele que não faz as obras de Deus é um ocioso. Aquele que rouba o bem do outro está morto. Aquele que não partilha o seu bem é um ocioso. Dedicaste às obras da misericórdia, se partilhaste seus bens com o pobre. Jejuaste verdadeiramente, se o que deverias comer durante o dia, deste ao indigente; se jejuas e não partilhas a ninguém, és ocioso, nada fizeste.

Ele saiu então à sexta hora (época de Abraão a Moisés) e à nona (época de Moisés até Cristo), para se manifestar cada vez mais, e fez o mesmo, ou seja, convidou e prometeu uma recompensa; e para a décima primeira hora, ou seja, nos últimos tempos, a saber, os tempos de Cristo até a consumação dos séculos. Ele saiu especialmente e se manifestou mais claramente como Cristo, e encontrou outros, parados, em pé, não caminhando, não se humilhando; eram os gentios; e lhes disse: “Por que permaneceis aqui, neste lugar tão perigoso, o dia inteiro, quando tendes um tempo favorável e uma grande recompensa assegurada?”. Eles lhe responderam: “Porque ninguém nos contratou”; ou seja, porque nenhum profeta, nenhum doutor, veio nos instruir. Ele lhes disse: “E vós também, ide à minha vinha”; ou seja, crede, e depois traduza a fé do vosso coração, realize essa crença em vossas obras. Segundo São João Crisóstomo, aquele que não trabalha nesta vida, não se senta ao banquete celestial na outra. Esta palavra aplica-se geralmente às diversas idades do mundo; mas moralmente, pode aplicar-se aos eleitos e às diversas épocas da vocação. A manhã e a primeira hora representam a infância. A terceira hora marca a adolescência; a sexta hora, a juventude e a idade viril. A nona hora é a velhice; e pela décima primeira hora entende-se a decrepitude.

         O homem que negligencia trabalhar para sua salvação é chamado de ocioso durante todo o dia ou por toda a sua vida. Deus chama os homens à graça e à glória em todo tempo e em qualquer idade, porque sempre há aqueles que se corrigem e que Deus recompensa. Um arrependimento sincero nunca chega tarde demais. Tomemos aqui as palavras de um homem que fala consigo mesmo: “Chegaste à tua nona hora”, diz ele, “por que permaneces ocioso? Estás prestes a alcançar a décima primeira hora de tua vida; por que parar? E qual outra hora esperas ainda? Trabalha para tua salvação; aquele que deseja servir a Deus será admitido graciosamente, mesmo na última hora”. Santo Isidoro marca para o homem seis idades nesta vida. A sétima idade do homem é o dia de descanso das almas até o juízo. Então virá a ressurreição dos corpos, que iniciará uma oitava idade para o homem, quando a noite chegar, no fim do mundo ou da vida. Segundo São João Crisóstomo, deve-se considerar que Deus não paga desde a manhã, mas somente à noite, pois Ele recompensa apenas o trabalhador fiel que persevera. O Senhor da vinha diz ao seu procurador, ou seja, Deus Pai diz ao Cristo, porque o Pai entregou a Ele todo o seu poder: “Chamai os trabalhadores, e não os ociosos, diante de vosso tribunal, e pagai-lhes, começando pelos últimos até os primeiros”. O denário é dado aos últimos primeiro porque, como diz São João Crisóstomo, era justo pagar a todos. Mas pagar os últimos primeiro não ofendia a justiça e estava em conformidade com a misericórdia e bondade de Deus. Ele dá primeiro o salário aos últimos trabalhadores, depois aos primeiros. A misericórdia divina não olha para a ordem ou a posição; Deus, que em seus dons considera mais as causas e a intenção do que o trabalho realizado e o tempo empregado, suplanta com sua graça o que falta. Diz São Bernardo:

“Exagere seus méritos o quanto quiser, vanglorie-se de suas fadigas, a misericórdia de Deus é melhor do que tudo o que podemos lhe oferecer por nós mesmos. É ela que me permite reparar minhas ações defeituosas”.

Assim, segundo a ordem do pai de família, os últimos receberam, assim como os primeiros, um denário cada um, ou seja, tudo o que estava acordado, a saber, a vida eterna. Segundo Santo Agostinho, esse único denário dado a todos é uma única vida eterna, recompensa futura de cada um, igual para todos, de igual duração para todos; porque lá, a duração não é mais relativa, mas absoluta. No entanto, lá existirá uma única diferença: a diversidade e o brilho dos méritos entre os eleitos. Esse único denário, portanto, é múltiplo em si mesmo, devido à diferença dos méritos dos sujeitos que o recebem. No céu, há um número infinito de méritos diferentes. E os primeiros, ao receberem o denário, murmurariam contra o pai de família, dizendo: “Os últimos trabalharam uma hora, e tu os tratas como nós, que suportamos o peso do dia e o calor”. O peso do dia significa a justiça que leva em conta as horas para aqueles que estão comprometidos. O calor do dia são as tentações que nos são oferecidas pelas diversas circunstâncias do dia, devido à malícia de nosso inimigo e às nossas próprias fraquezas, especialmente as fraquezas e paixões carnais. Suportamos o peso do dia porque observamos a justiça, cumprindo nosso dever a cada instante, sem descanso. Pode-se também dizer que esses murmúrios eram murmúrios de admiração, pela infinita bondade de Deus, quando Ele recompensa os seus santos. Assim, há dois murmúrios: um murmúrio de queixa e um murmúrio de admiração. Da parte dos trabalhadores, é um murmúrio de queixa, que gera de nossa parte um murmúrio de aprovação. É assim também com o murmúrio dos santos ou dos eleitos. Sem se queixar da glória reservada a outros novos chegados, quando eles mesmos foram mais tempo empenhados no serviço de Deus, eles se surpreendem com Sua bondade inesgotável e só murmuram da maneira correta, a respeito de sua liberalidade e misericórdia, que fazem com que, sem esforço e de uma só vez, os últimos sejam coroados como eles na glória.

Foi assim que Pedro pôde murmurar ao ver o bom ladrão ser considerado digno de chegar antes dele na glória. Observemos que o salário dado é justo aos olhos dos primeiros que chegaram, pois o preço acordado é dado a todos. Deus não age injustamente com os primeiros; ele age misericordiosamente com os últimos. Aos primeiros, sua justiça, aos segundos, sua bondade. Por esses dois atributos, Deus preenche a diferença nas ações uns e outros. E recebem um prêmio igual; para que seja mostrado, segundo o Apóstolo, que não somos salvos pelas obras. O Senhor não considera a quantidade nem a qualidade, mas a intenção e a caridade de nossas obras. Uma penitência tardia, se for verdadeira, não faz perder nem diminui a graça de Deus.

Embora os últimos sejam tão recompensados quanto os primeiros, não se deve adiar insanamente a conversão, nem esperar pela última hora ou pelo último momento, por receio de que, sobrecarregados com nossos pecados, acabemos formando um coração impenitente e incapaz de receber o perdão de nossas faltas; ou que, no caso de um arrependimento sincero, não tenhamos tempo de cumprir a penitência exigida pela justiça. Se, no entanto, adiaste até a última hora o momento de viver corretamente, não haja preguiça, então redobre os esforços. Cícero diz:

“Para os idosos, os trabalhos que diminuem os esforços do corpo parecem ser necessários, enquanto os exercícios que aumentam as forças da alma são igualmente essenciais; e, portanto, nada é mais a ser evitado pela velhice do que ceder à fraqueza e à preguiça”.

Moralmente falando, esses murmúrios dos primeiros operários podem servir de instrução para certos monges que murmuram quando preferem aos recém-chegados ou aos mais jovens do que eles, para os cargos ou honrarias. Este exemplo mostra aos religiosos que não devem estabelecer em suas mentes comparações entre eles e os homens do mundo, menos assíduos do que um religioso no serviço de Deus. Frequentemente, como vemos aqui no Evangelho, simples leigos igualam em méritos os religiosos regulares, e até os superam em algumas ocasiões.

E Jesus respondeu a um deles: “Amigo, eu não te faço injustiça alguma, não foste tu que combinaste comigo um denário?”, o que o pai de família responde a um dos operários, ele o diz a todos. Todos estavam na mesma situação e tinham as mesmas razões para murmurar. Não há injustiça em uma liberalidade gratuita feita a outro. Não foi combinado um denário para cada um dos operários? Toma o que é teu; estou pronto para te recompensar segundo o teu merecimento. Vai, e entra na alegria e nas intenções do teu mestre. Depois de te fazer justiça, não me é permitido fazer o que quero? Como se Ele dissesse: A vontade de Deus é sempre justa. Deus nunca quer senão o que é lícito. Assim, quando Deus quer algo, essa coisa é lícita a priori. Mas, ao contrário, a posteriori, quando algo é lícito, podemos querer isso. E, para provar que o que Deus quer não é apenas lícito, mas também cheio de bondade, Jesus acrescenta: “O teu olho é mau porque eu sou bom?”, diz São Gregório:

“É uma loucura se opor à bondade de Deus. Deveríamos nos queixar se Deus não desse o que deve, e não quando Ele dá o que não deve”.

E diz São João Crisóstomo:

“Não se pode se queixar justamente de quem excede nossos desejos ou nossa esperança com seus favores”.

Concluamos e resumamos a parábola inteira em poucas palavras: assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros, os últimos. Frequentemente, de fato, aqueles que chegam tardiamente à penitência são mais recompensados do que aqueles que chegam desde a primeira hora, sendo a morte prematura a causa dessa graça. Muitas vezes, também, os que chegam tardiamente à penitência trazem uma fervorosa devoção maior do que os primeiros. Aqui, é como o viajante tardio, que apressa o passo para recuperar o tempo perdido. Finalmente, estas últimas palavras podem ser interpretadas da seguinte maneira: os últimos aos próprios olhos são os primeiros aos olhos de Deus; os últimos no julgamento dos homens são frequentemente os primeiros no julgamento de Deus. Deus não observa a casca do homem, Ele penetra o fundo dos corações. Se todos, nesta parábola, receberam um denário, não devemos concluir que todos aqueles chamados à fé serão salvos; daí, estas palavras terríveis: pois muitos dos trabalhadores da primeira, da terceira, da sexta, da nona e da última hora são chamados, mas poucos são escolhidos e recebidos no céu. Muitos fazem parte da Igreja militante que nunca farão parte da Igreja triunfante. Assim, são poucos os que serão salvos, em relação ao grande número daqueles que são chamados ao longo do dia. Segundo São Gregório, muitos são os que creem, muitos preenchem os recintos dos templos do Senhor; poucos, porém, alcançarão seu reino celestial.

Assim, os filhos de Israel, dos quais a maioria foi chamada a entrar na terra prometida, não entraram nela senão em pequeno número. Gideão também chamou muitos soldados para a batalha, mas escolhe apenas um pequeno número para ir com ele. Porque é larga e espaçosa a porta que conduz à perdição, muitos entram por ela; mas a porta estreita, que conduz à vida, poucos entram por ela. O homem diz: “Repousem para trabalhar melhor”; Deus diz: “Trabalhem para descansar melhor”. É a custa de um trabalho contínuo e incessante que se adquire a recompensa futura. O homem que se tiver ocupado laboriosamente das virtudes ouvirá estas palavras consoladoras, saídas da boca de Deus: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos restituirei”. A recompensa de Deus será tanto maior quanto mais intenso for o trabalho. O Apóstolo atesta: cada um receberá sua recompensa conforme o seu trabalho. Todos os chamados sabem que o são, mas ninguém sabe se é escolhido; razão a mais para redobrar nossa solicitude em operar nossa salvação. Diz São Gregório:

“Há duas coisas às quais devemos dar a maior atenção: primeiro, que ninguém presuma demasiado de si mesmo, pois, embora bem certo de ser chamado à fé, todo homem ignora se é digno da felicidade eterna. A segunda coisa a observar é que ninguém, ao ver seu próximo no abismo do vício, ouse condená-lo, porque ninguém sondou ainda os tesouros da misericórdia divina. Sabemos bem o que o pecador é hoje, mas ignoramos o que será amanhã. Muitas vezes, aquele que vemos chegar depois de nós, nos precede pela superioridade de uma boa obra, e amanhã mal seguimos aquele que hoje parecemos preceder”.

Diz São João Crisóstomo:

“Esta parábola destina-se a excitar tanto a confiança daqueles que chegam tarde à penitência quanto seu fervor, pois ela nos mostra que nesta vida não há penitência tão tardia que, pela fervorosa devoção, não possa preceder em mérito qualquer outra que tenha chegado antes no tempo, mas que, sem se renovar, não avança com a mesma intensidade”.

Em qualquer idade e a qualquer hora, o pecador é bem recebido por Deus. Em qualquer momento que o pecador se converta e se arrependa, diz Ezequiel, ele viverá, será salvo. Enquanto isso, devemos viver cada dia como se fosse o último de nossas vidas. Diz Sêneca:

“Devemos ordenar cada dia de nossa vida como se fosse o último, como se nesse dia fôssemos morrer e travar nossa última batalha. Aquele é muito feliz e verdadeiramente senhor de si, que vê o amanhã chegar sem medo nem impaciência. Entre outros vícios, a loucura tem esta característica: ela sempre começa a viver. O que pode ser mais vergonhoso do que a conduta de um idoso que começa a viver? O que há de mais belo, ao contrário, do que dizer adeus à vida antes que a morte venha nos encontrar, e então esperar, livre de preocupações, pelo fim dos nossos dias?”.

Nada serve mais para vencer nossa tendência ao mal do que a reflexão sobre a morte. Isso faz com que o Sábio diga: “Em todas as suas ações, lembre-se da sua última hora, e você nunca pecará”. Diz São Gregório:

“Nada serve para dominar as diversas paixões como a constante lembrança da morte”.

Diz São Bernardo:

“É um excelente remédio para voltar ao Senhor ter a morte diante dos olhos”.

Importa muito, para nos tirarmos da preguiça e da indolência, olhar para Jesus e para aqueles que regulam sua vida segundo este divino modelo. Este é o meio de sair do nosso relaxamento e apatia, para abraçar a fervorosa dedicação e avançar na vida espiritual.

 

ORAÇÃO

Senhor Jesus Cristo, sumo pai de família, vós me chamastes, no começo da manhã, para a Vossa vinha, quando, misericordiosamente, me chamastes da minha juventude para a fé e o Vosso serviço, e fizestes um pacto comigo para trabalhar pelo denário da vida eterna; mas eu, miserável, permaneci o dia todo ocioso em minha vida, e, vivendo de forma negligente, não cumpri a minha obrigação. Senhor, porque sois bom e misericordioso, fazei com que eu, ao menos na undécima hora, me arrependa e produza frutos dignos de penitência, para que, diante de Vós, eu mereça encontrar alguma recompensa. Amém.



domingo, 3 de março de 2024

Vita Christi – Do endemoniado cego e mudo – Ludolfo da Saxônia, O.Cart.

 


Depois do que acabamos de relatar, foi trazido a Jesus um endemoninhado que também era cego e mudo. Segundo São Lucas, era apenas cego; mas São Mateus, que se debruça mais pormenorizadamente sobre este assunto, diz que era cego e mudo. A mudez e a cegueira deste homem eram simplesmente o resultado de estar possuído pelo demônio, assim que o demônio foi expulso, ele passou a ver e a falar. É por isso que o Evangelho diz: “E Jesus curou-o”, isto é, expulsou dele o demônio, “e logo lhe foi restituída a vista e a fala”. Diz São Jerônimo:

“Jesus Cristo operou três milagres neste homem, pois libertou-o do demônio com que estava possuído e, ao mesmo tempo, restituiu-lhe a fala e a visão. O milagre, que então se realizou fisicamente a favor deste infeliz, renova-se moralmente todos os dias a favor do pecador. Quando se converte, o demônio é expulso do seu coração, do qual se tinha tornado dono, é então subitamente iluminado pelas luzes da fé, e a sua língua, até então muda, é solta para proclamar os louvores do Senhor”

Diz Santo Agostinho:

“O pecador é ao mesmo tempo endemoninhado, cego e mudo. É endemoninhado, porque, em vez de se submeter a Deus, se submete ao império de Satanás; é cego, porque se recusa a professar a verdadeira fé; é mudo, porque não dá graças a Deus pelos benefícios de que foi cumulado”

Diz São Crisóstomo:

“Para nos fazer compreender que não basta ao cristão conhecer Deus para se salvar, mas que deve também louvá-lo e confessá-lo, Jesus Cristo quis curar este homem cego e mudo, dando-lhe o uso da vista para conhecer e o uso da palavra para confessar o Todo-Poderoso. Pois aquele que conhece Deus, mas não proclama a sua grandeza, embora iluminado interiormente, não é menos mudo e aquele que, conhecendo Deus, não cumpre os seus preceitos, e que, embora proclamando os seus louvores, não conforma a sua conduta com a sua linguagem, é, em relação a Deus mudo e cego, pois conhecer a Deus é temê-lo e amá-lo”

Este homem endemoninhado representa o pecador que persevera no mal. Enquanto o pecado reinar nos nossos corações, somos escravos de Satanás, e o demônio domina-nos de três maneiras diferentes: o nosso espírito pela soberba, a nossa carne pela concupiscência e todo o nosso ser pela concupiscência dos bens terrenos; pois, como diz São João, tudo neste mundo ou é concupiscência da carne, ou concupiscência dos olhos, ou soberba da vida, e é isso que nos torna mudos. Deus deu a palavra ao homem por três razões principais: para o louvar e bendizer; para proclamar a verdade e edificar o próximo; para confessar os seus pecados e pedir perdão. Ora, a soberba, levando o homem a atribuir a si próprio o louvor que só a Deus é devido, rouba-lhe o primeiro dom da palavra; a avareza, fazendo-o preferir os seus interesses aos do próximo, rouba-lhe o segundo; e a concupiscência, os prazeres dos sentidos, tiram-lhe o terceiro, ao mesmo tempo que o cegam para tudo o que diz respeito à sua salvação e o afastam da verdadeira luz, daquele que disse: “Eu sou a luz do mundo, aquele que não me segue anda nas trevas”. Mas se este endemoninhado mudo e cego for apresentado ao Senhor, ou seja, se o pecador arrependido se voltar para Deus, Jesus curá-lo-á, expulsando dele o demônio e devolvendo-lhe a vista e a fala. A malícia de Satanás abundava neste infeliz possesso, pois abraçava-o por todos os lados e tinha-o tornado cego, mudo e até surdo, acrescenta São Crisóstomo. Mas a misericórdia de Deus transbordou, pois o Salvador, depois de ter expulsado o demônio, devolveu-lhe a vista, a audição e a fala. Este endemoninhado é a figura do pecador a quem Deus justifica e em cujo favor realiza os mesmos milagres que o Salvador operou em favor deste homem possesso. Devolve-lhe o uso da palavra, porque o pecador, depois da sua conversão, confessa os seus pecados, proclama os louvores de Deus e edifica o próximo; abre-lhe os olhos, iluminando-lhe o entendimento sobre a gravidade das suas faltas, o rigor do juízo futuro e a vaidade dos bens temporais; finalmente, abre-lhe os ouvidos tornando-o dócil aos conselhos, benefícios e ameaças do Senhor.

Ao ver este prodígio que o Salvador acabava de realizar, a multidão do povo, isto é, a gente simples, ficou espantada e admirada, e dizia uns aos outros: “Não é este o Cristo, o Messias prometido que deve nascer da família de David?”. Os escribas, pelo contrário, e os fariseus, isto é, os grandes doutores, indignados por ouvirem o povo proclamar, com base na evidência, que Jesus era o Cristo, diziam para si mesmos: “É por Belzebu, príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios”, blasfemando assim contra o Espírito Santo, a quem só compete expulsar os demônios e restituir aos homens a saúde corporal e espiritual. Como não podiam negar este fato maravilhoso, procuravam, pelo menos, depreciá-lo e até torná-lo odioso, dizendo que, se Jesus Cristo expulsava os demônios dos corpos dos possessos, era apenas pela virtude de um demônio mais poderoso com quem estava em comunicação. Diz São Crisóstomo:

“A inveja pouco se importa com o que dito, desde que as suas palavras possam prejudicar os outros”

Diz São Beda:

“O povo, na sua justa simplicidade admirava as obras do Salvador, mas os escribas e os fariseus procuravam negá-las ou, pelo menos, interpretá-las mal, dizendo que eram o efeito, não da virtude divina, mas do poder do demônio”.

Segundo São Beda, a origem da idolatria ou adoração do demônio, que atribui a Belus. O rei Ninus, diz-nos ele, fundador ou melhor, restaurador da cidade de Nínive, tendo perdido o seu pai, chamado Belus, primeiro rei dos assírios, ergueu uma estátua em sua honra. Os criminosos que puderam refugiar-se aos pés desta estátua foram perdoados, o que a tornou venerável aos olhos do povo e, pouco a pouco, com a ajuda do demônio, recebeu honras divinas. Em breve, seguindo o exemplo dos assírios, os outros povos erigiram uma estátua à qual deram nomes diferentes, de acordo com a diversidade da sua língua. Os caldeus chamavam-lhe Bel, os habitantes da Palestina Baal, os moabitas Belfegor; os judeus, que só adoravam o verdadeiro Deus, em escárnio dos gentios, deram a Baal o nome de Belzebu, que significa príncipe das moscas, por causa do grande número de moscas atraídas ao seu templo pelo sangue das vítimas ali imoladas. Afirmavam que o príncipe dos demônios residia neste ídolo, porque era a origem da idolatria, porque aí se realizavam certos feitos extraordinários e também porque o seu culto era o mais difundido entre as nações, pois, embora cada nação tivesse os seus deuses particulares, o culto de Baal era geralmente aceite por todos os povos. Por isso, os fariseus, querendo condenar os milagres de Jesus Cristo, acusaram-no de expulsar os demônios por virtude de Belzebu, príncipe dos demônios. Mas o Salvador, conhecendo os seus pensamentos, mostra-lhes por várias razões que, se ele expulsa o demônio, não é pelo poder de Belzebu, mas pela virtude do Espírito Santo, que é o dedo de Deus. Ora, o Espírito Santo é aqui comparado ao dedo da mão por três razões diferentes: em primeiro lugar, porque assim como o braço e a mão que comunicam com o corpo são alimentados pela sua substância, e o dedo, através da mão e do braço, também participa dela, assim em Deus o Filho procede do Pai, e o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Em segundo lugar, porque, assim como no dedo as articulações e as falanges são distintas umas das outras, assim também os vários dons do Espírito Santo são diferentes uns dos outros. Finalmente, assim como o braço e a mão atuam e operam através dos dedos, assim o Filho de Deus, que é o braço e a mão do Pai eterno, opera através do Espírito Santo.

Jesus responde então aos seus pensamentos mais íntimos, pensamentos que, segundo São Crisóstomo, o medo do povo os impedia de exprimir exteriormente, dando-lhes uma prova clara da sua divindade, pois só Deus pode penetrar no fundo dos corações. Depois refuta estes pensamentos com este primeiro raciocínio: “Se é pela virtude do demônio que eu expulso os demônios, segue-se que eles estão divididos entre si e que, a partir daí, o seu poder não poderá subsistir por muito tempo”; segue-se também que o Messias chegou, porque é ele que, no seu acontecimento, deve aniquilar o poder do demônio. Depois acrescenta: “Todo reino dividido contra si mesmo pelas dissensões e incompreensões dos príncipes que o governam será destruído, e toda cidade, toda casa dividida contra si mesma pelas vontades opostas de seus habitantes cairá na ruína”. Diz Salústio:

“A união faz prosperar e crescer as pequenas coisas, mas a discórdia destrói até as maiores”

Diz São Jerônimo:

“Nada aqui em baixo é maior do que um reino, mas a discórdia e a dissensão destroem-no. Podemos, e ainda mais, dizer o mesmo de uma cidade, de uma casa, pois tudo o que está dividido contra si mesmo, grande ou pequeno, deve infalivelmente perecer”

Assim, se o reino de Satanás está dividido contra si mesmo, isto é, se os demônios se expulsam mutuamente dos corpos dos homens que possuem, o seu reinado está a chegar ao fim e será em breve destruído, porque o seu reinado consiste em cativar os mortais sob o seu poder, mas se os homens estão ainda sujeitos ao seu império, o seu reinado subsiste e não há divisão entre eles. Esse reino dividido contra si mesmo é a imagem da alma do pecador, cuja sensualidade se rebela contra a reta razão, esse reino, ou melhor, essa alma, cai em ruínas, porque Jesus Cristo, que é a verdade, se afasta dela e o diabo se faz seu senhor absoluto. É também a figura de qualquer comunidade religiosa em que a paz e a harmonia tenham desaparecido. Uma comunidade assim não pode sobreviver por muito tempo, tem de perecer. Os demônios, apesar do seu grande número, estão sempre de acordo no seu desejo de fazer o mal, mas, infelizmente, quão poucos homens se unem para fazer o bem e se encorajam mutuamente a fazê-lo!

Jesus rebateu os seus pensamentos com outro raciocínio: “O poder com que eu expulso os demônios tem a mesma origem que o poder que os vossos filhos usam, mas, como vós próprios reconheceis, não é pelo poder dos demônios que eles expulsam os demônios e, portanto, eu também não”. Então Ele disse-lhes: “Se eu expulso os demônios dos corpos dos endemoninhados por Belzebu, o príncipe dos demônios, por quem é que os vossos filhos os expulsam?”. Depois de ter combatido vitoriosamente o erro dos fariseus, Jesus estabeleceu a verdade, pois se não é pelo poder do demônio que Ele expulsa os demônios, é de fato pelo poder de Deus, pois não há meio-termo. “Se eu expulso os demônios pelo dedo ou pelo poder de Deus, é evidente que o Reino de Deus chegou até vós, isto é, eu sou o Cristo, o Filho de Deus, destinado a reinar sobre vós, e o céu está aberto com todas as suas recompensas e toda a sua glória para vós e para todos os que acreditam no meu nome”

Depois de ter demonstrado aos fariseus que o demônio não é o autor dos prodígios que realiza, Jesus Cristo voltou a provar-lhes, abundantemente, por várias razões, que Ele próprio não é ministro de Satanás. Em primeiro lugar: o servo não é mais poderoso do que o Mestre e Cristo é mais poderoso do que o demônio, pelo que não é nem seu servo nem seu ministro. Quando o homem forte e armado guarda a sua casa, tudo o que possui está em paz e ninguém lho pode tirar, mas se aparece alguém mais forte do que ele, acorrenta-o e apodera-se de todos os seus despojos. O diabo é esse homem forte e armado e, como está escrito no livro de Jó, nenhum poder na terra se pode comparar ao dele. As suas armas são os seus artifícios, a sua astúcia e toda a espécie de pecados, a sua casa é este mundo onde reinou como senhor até à vinda do Salvador, os seus vasos e os seus despojos são os homens que ele obseda e engana. Enquanto ele manteve a sua morada, tudo o que possuía estava em paz, pois ninguém ousava resistir-lhe, continua a ser assim agora, ele não atormenta os pecadores que estão sujeitos ao seu domínio. Mas um mais forte do que ele, Cristo, tendo descido do céu à terra, venceu o seu poder resistindo às suas várias tentações e suportando com paciência todas as dores da sua paixão, tirou as suas armas, revelando os seus ardis, e distribuiu os seus despojos convertendo os pecadores e atraindo-os a si para os tornar apóstolos, evangelistas, mestres e profetas na sua Igreja. Com isto, Cristo mostrou-se mais forte e mais poderoso do que o demônio, pelo que não é seu ministro e não age segundo a sua virtude. Daqui se conclui também que Cristo é o Messias, porque, segundo as profecias, o poder do demônio devia ser diminuído e acorrentado na sua vinda. Concluamos também daqui que nunca devemos estar demasiado confiantes em nós próprios e demasiado tranquilos, porque estamos perante um adversário poderoso, mas não desesperemos, o nosso protetor e o nosso chefe é mais forte do que ele. Diz São Crisóstomo:

“Não se deve temer um inimigo poderoso, que luta sob a bandeira de um rei que é mais forte, no entanto, estejamos atentos e resistamos com coragem, pois o nosso excesso de confiança seria a nossa ruína, a nossa negligência é a força do nosso inimigo”.

Diz São Gregório:

“O demônio é fraco como uma formiga quando lhe resistimos, mas se cedermos aos seus ataques, torna-se forte como um leão”

Diz São Jerônimo:

“As tentações, se olharmos apenas para a nossa própria fraqueza, podem parecer-nos grandes, mas se considerarmos a força de Deus que nos sustenta, em breve não passarão de brincadeira e fumo”

Jesus passa então a uma segunda razão, que é a seguinte: o patrão e o servo devem estar unidos na mesma vontade, mas Cristo e Satanás atuam com vontades opostas, pelo que um não é ministro do outro. É por isso que acrescenta: “Quem não estiver unido comigo na única vontade de fazer o bem, está contra mim”. É o que se passa aqui, Cristo só deseja a salvação das almas, Satanás só inspira a sua destruição. Jesus quer retirar os homens do vício e conduzi-los à virtude, o demônio faz todo o possível para os conduzir ao mal. Diz São Jerônimo:

“O Salvador não tem em vista senão a salvação das almas, o demônio, pelo contrário, faz todos os esforços para as manter nas suas cadeias, de modo que não há acordo possível entre eles”.

Finalmente, a terceira razão, as obras do Mestre e do servo devem assemelhar-se e tender para o mesmo fim, mas as ações de Cristo e as de Satanás têm um efeito completamente oposto, portanto, Jesus não é o ministro do diabo. É isto que o nosso Salvador nos faz compreender com estas palavras: “Quem não se reúne comigo na Comunidade da fé e no seio da Igreja, dissipa em vez de reunir, é o lobo no meio do rebanho, é o demônio que espalha erros, heresias e cismas no corpo dos fiéis”. Jesus Cristo reúne o que está disperso, o demônio, pelo contrário, dispersa o que está unido; o primeiro chama os homens à prática do bem, o segundo incita-os ao mal, estão, portanto, longe de concordar na mesma vontade e para o mesmo fim. Diz São Crisóstomo:

“Ele, que não está comigo e não se reúne comigo, não pode ser considerado como meu cooperador na expulsão dos maus espíritos, mas sim como meu inimigo que procura destruir o que Eu faço”

Quando o Salvador viu que os fariseus permaneciam insensíveis às suas palavras e endureciam os seus corações, passou da doçura às ameaças e disse-lhes que todos os pecados contra o Espírito Santo, que eles blasfemavam atribuindo os seus milagres ao poder do demônio, não seriam perdoados nem nesta vida nem na outra, a não ser que se arrependessem com uma penitência sincera. “Em verdade, em verdade vos digo que todos os pecados e blasfêmias que provêm da ignorância ou da fraqueza humana podem ser perdoados aos homens penitentes, porque esses pecados não são diretamente opostos ao amor de Deus que perdoa, mas pecados contra o Espírito Santo, que são O desespero, a presunção, a perseverança obstinada no mal, a impenitência final, a inveja à vista das graças concedidas aos outros e os ataques à verdade conhecida, não serão perdoados nem neste mundo nem no outro, porque aqueles que os cometem nunca se arrependem – ou quase nunca se arrependem – e não há perdão para as suas faltas”. Daí a diferença entre o pecado contra si mesmo ou contra os outros, a simples blasfêmia contra Deus e o espírito de blasfêmia. Os dois primeiros nascem da ignorância ou da fraqueza humana. Os fariseus eram culpados desta última, de fato, instruídos nas Sagradas Escrituras, lutavam contra a verdade conhecida, e foi apenas por inveja e pura malícia que blasfemaram contra Deus, atribuindo os milagres do Salvador ao poder do demônio. Quando pecamos por fragilidade ou fraqueza, ofendemos o poder do Pai, quando pecamos por ignorância, ofendemos a sabedoria do Filho, mas quando pecamos por malícia, atacamos o Espírito Santo, que é o amor do Pai e do Filho.

Assim, qualquer pecado contra o Pai e o Filho, por ter uma certa escusa na ignorância ou fraqueza que o produziu, pode ser perdoado tanto neste mundo quanto no outro, no sentido de que, se o pecador se arrepender aqui embaixo, ele pode obter alguma indulgência na satisfação imposta à sua falta, ou, se ele morrer em seu pecado, ele pode, na próxima vida, obter alguma mitigação das punições devidas ao seu crime. Mas, pelo contrário, aquele que peca por pura malícia não obterá nenhuma remissão, nem neste mundo, onde, se se arrepender, terá de cumprir integralmente a satisfação imposta ao seu pecado, nem no outro, onde, se morrer na impenitência, terá de sofrer integralmente todos os tormentos devidos aos seus crimes. É este pecado contra o Espírito Santo de que fala São João na sua epístola canônica, quando nomeia um pecado que dá a morte à alma. Segundo São Gregório, este pecado não é outro senão a perseverança no mal, pois o pecador que morre na impenitência não pode obter o perdão na outra vida, e daí em diante seria rezado indiferentemente.

O pecado contra o Espírito Santo é a obstinação, o endurecimento no mal, causado pela presunção ou desespero. Aquele que presume da misericórdia de Deus, prometendo a si mesmo a impunidade, endurece-se no mal e, assim, acumula pecado sobre pecado, ofendendo assim o Espírito Santo, cuja misericórdia não extingue a justiça que pune. Aquele, pelo contrário, que espera na bondade de Deus, imaginando que a grandeza dos seus pecados ultrapassa a grandeza da misericórdia de Deus, mergulha cada vez mais no crime e cai assim na condenação eterna. Qualquer pecado, seja ele qual for, opõe-se à Trindade no seu todo, mas a presunção e o desespero são especialmente contrários ao Espírito Santo, que é o amor do Pai e do Filho e a bondade de ambos, uma propriedade natural da essência divina pela qual todos os pecados são perdoados. Portanto, quem presume demasiado ou desespera da misericórdia de Deus é culpado de pecar contra o Espírito Santo, desprezando tanto a sua bondade como a sua justiça. Chamamos incurável a um doente que rejeita todos os remédios que lhe poderiam restituir a saúde e que, no entanto, Deus, pela sua omnipotência, pode curar. Do mesmo modo, aquele que peca contra o Espírito Santo priva-se de todos os meios para obter o seu perdão, que são o temor da justiça divina e a esperança na sua misericórdia, embora Deus, na sua infinita bondade, possa ainda ser-lhe benévolo. É neste sentido que dizemos que este pecado é irremissível, isto é, difícil e quase impossível obter o perdão.

O Salvador, querendo confundir cada vez mais o erro dos fariseus, mostrou-lhes, por uma simples comparação, que os milagres que fazia não eram fruto do poder do demônio, mas da virtude divina. “Não podeis negar”, diz-lhes Ele, “que uma árvore boa dá bons frutos e que uma árvore má dá maus frutos”. Por árvore, entende-se o princípio de toda a ação, e por fruto, as próprias obras. Ora, entre a árvore e o seu fruto há uma identidade necessária, indispensável, de modo que, se a árvore é boa, produzirá infalivelmente bons frutos, e se é má, produzirá maus frutos. Da mesma forma, como as obras maravilhosas que o Salvador realizou eram boas e salutares, ele conclui com razão que elas derivam de um princípio bom e não mau, e que, consequentemente, eles o acusaram erradamente de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, o príncipe dos demônios. Depois, aplicando a sua comparação aos fariseus, mostrou-lhes a fonte do seu erro, que era o ódio e a inveja. Os fariseus e os doutores da lei tinham inicialmente reconhecido Jesus como o Messias prometido, mas, logo que ele os censurou pelos seus vícios, conceberam ódio e ciúme contra ele e, cegos por essas paixões, caíram no erro, pois a própria natureza do ódio e do ciúme é corromper o julgamento e extinguir a razão. Desde então, começaram a interpretar mal todas as suas ações e a criticar a sua conduta. Disse-lhes: “Raça de víboras, herdastes o ódio dos vossos pais, assim como eles perseguiram os profetas, vós me perseguis a mim, como podereis dar bons frutos, se não sois senão malícia e corrupção?”. Diz São Crisóstomo:

“A árvore só pode produzir de acordo com a natureza da sua raiz, a vontade do homem é a raiz, as palavras e as ações são os seus frutos, portanto, se o coração de um homem é de um modo, as suas palavras e ações serão deste mesmo modo”.

E o Salvador acrescenta: “A boca fala da abundância do coração”, isto é, a fala é apenas a manifestação exterior dos sentimentos e pensamentos do nosso coração. Diz São Crisóstomo:

“Consideremos para confusão dos maus e louvor dos bons, o que Nosso Senhor diz, que a boca fala da abundância do bem ou do mal que há no coração, porque o que procede externamente pela fala vem do supérfluo que há no coração”

E foi por isso que repreendeu os fariseus, porque, se as suas palavras eram más, que pensar da malícia dos seus corações, da qual escapavam como de uma torrente? Diz São Gregório:

“Vigiemos e vigiemos bem para guardar o nosso coração de todo o mal, os nossos pensamentos mais secretos não podem escapar ao olhar de Deus, e nós prestar-lhe-emos contas de todos os momentos da nossa vida”.

Porque a boca fala da abundância do coração, Jesus Cristo acrescenta, e com razão: “o homem bom tira o bem do seu bom tesouro (que é o seu coração), mas o homem mau só pode tirar o mal do seu mau tesouro”; como se dissesse aos fariseus: “Porque sois maus, só podeis produzir o mal do fundo do vosso coração corrupto”. O tesouro do nosso coração é a nossa intenção, segundo a qual Deus aprecia e julga as nossas ações; muitas vezes, as grandes ações são menores aos olhos de Deus do que outras muito mais pequenas; tudo depende do grau de amor que anima a pessoa que as pratica, é por isso que a viúva do Evangelho que dá duas moedas é mais louvada do que o rico que derrama moedas de ouro, Deus não olha para a grandeza da ação, mas para a intenção com que agimos, e recompensa-nos segundo a caridade e a vontade que são o seu princípio e o seu motor.

Depois de ter refutado o erro dos fariseus, Jesus Cristo ameaçou mostrar-lhes que a maledicência e a calúnia são grandes vícios que serão severamente punidos. Diz-lhes que todos os homens darão contas a Deus, no dia do juízo final, não só das palavras más e criminosas, mas também das palavras vãs e inúteis e esse juízo será sem apelo nem esperança de perdão. Como se lhes dissesse,segundo São Jerônimo:

“Se cada homem tem de dar conta, no dia do juízo, das suas palavras vãs e inúteis, pelas quais não fez penitência neste mundo, que conta não tereis vós de dar, vós que caluniais as obras do Espírito Santo e o blasfemais, dizendo que é por Belzebu que eu expulso os demônios? Se Deus castiga até as palavras inúteis, que castigo não trarão eles sobre as suas cabeças?”.

Diz Orígenes:

“Toda a palavra que não tende para o amor de Deus e para a observância dos seus mandamentos, é vã e inútil”

Diz São Crisóstomo:

“Por palavras vãs, devemos entender, não as más palavras, mas aquelas que, sendo boas em si mesmas, são, no entanto, inúteis e infrutíferas para quem as diz e para quem as ouve. E se vamos ser julgados pelas nossas más palavras, que dizer das nossas más ações? Tenhamos, pois, cuidado com as palavras inúteis”

Lemos no livro dos Provérbios que a morte e a vida estão no poder da língua, de fato, cada um será justificado ou condenado diante de Deus segundo a sua própria língua, e com razão, pois cada um é mestre em falar ou calar.

Diz São Crisóstomo:

“E este juízo ser muito suave, pois cada um será julgado, não segundo o que os outros disseram dele, mas segundo o que ele próprio disse. Aprendamos, pois, a abster-nos não só de toda a linguagem má, mas também de todas as palavras inúteis, e repitamos com o Salmista: ‘Põe, Senhor, um freio na minha boca e uma guarda de prudência nos meus lábios’”

A conclusão moral de tudo o que precede é que devemos considerar cuidadosamente o que devemos dizer, a quem, onde, quando e como devemos falar. Estas são as cinco coisas que a nossa língua deve observar. Quanto ao que devemos dizer, o apóstolo São Paulo instrui-nos nestes termos: “A vossa linguagem seja sempre temperada com o sal da graça de Deus, isto é, seja útil e agradável”. Todas as palavras ociosas são inúteis, malsonantes ou prejudiciais. São inúteis quando não dão fruto nem para quem fala, nem para quem ouve; são malsonantes quando ferem a dignidade de um e de outro; são prejudiciais quando levam ao terror ou à depravação. Com quem devemos falar? O sábio diz-nos: “Não fales longamente com um tolo”. Quando quisermos falar, consideremos se é para o nosso bem ou para o bem dos outros; se for para os outros, consideremos se eles precisam do nosso conselho e se aceitarão bem as nossas palavras. Onde é que podemos falar? Nalguns lugares, como as igrejas, devemos abster-nos de falar; noutros, devemos falar raramente, como no refeitório; finalmente, podemos falar, mas com moderação, na sala dos religiosos. Como vemos no Eclesiastes, há um tempo para calar e um tempo para falar. Por vezes, devemos calar-nos por causa da fraqueza dos ouvintes, por vezes para não nos precipitarmos nas nossas palavras; outras vezes, por respeito pelas pessoas a quem nos dirigimos, ou mesmo pela pouca consideração que merecem aqueles que nos ouvem. Finalmente, como devemos falar? Isto é, qual deve ser a nossa aparência, o som da nossa voz, o sentido das nossas palavras? Devemos ter um exterior humilde e modesto, dar à nossa voz um tom suave e dizer apenas coisas verdadeiras. E, para resumir em duas palavras tudo o que acaba de ser dito, devemos gostar de falar pouco, e devemos queixar-nos em silêncio. Eis o que Sêneca recomendava em particular ao seu discípulo:

“Não sejas rápido no falar, pensa bem antes de confiar um segredo aos outros, pois como podes exigir-lhes silêncio, se tu próprio não foste capaz de o guardar?”

Mas, infelizmente, como são poucos no mundo, e mesmo na religião, os que sabem seguir esta regra de prudência!


sábado, 10 de fevereiro de 2024

Vita Christi – Da cura do cego de Jericó – Ludolfo da Saxônia, O.Cart.

 


Jesus Cristo, porém, aproximava-se de Jericó (essa cidade está situada entre a Galileia e Jerusalém, cerca de sete léguas a leste da qual o Salvador se dirigiu). Tal cidade, outrora florescente, foi completamente destruída, exceto pela casa de Raab, que permanece entre as ruínas em memória do serviço que essa mulher prestou aos enviados de Josué. Não muito longe dali, há uma fonte cujas águas amargas se tornaram potáveis pela oração do profeta Eliseu, ela nasce no sopé da montanha em que Jesus passou quarenta dias e quarenta noites jejuando e orando e, depois de um percurso de cerca de duas milhas, chega a banhar as muralhas de Jericó. Foi, pois, para este lugar que o Salvador dirigiu os seus passos, a fim de curar, segundo São Jerônimo, os doentes que ali se encontravam em grande número. Então, um cego que estava sentado à beira do caminho a pedir esmola, ouvindo o barulho da multidão e prevendo que era o Salvador que passava, começou a gritar bem alto do coração e da boca: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim”. Diz São Cirilo:

“Este cego foi educado na Lei de Moisés, não ignorava, portanto, que o Messias, segundo a carne, devia vir da família de Davi”.

Por isso, dirigindo-se a Ele, disse “Jesus, filho de Davi”, pois sabia também que este Messias seria Deus, por isso acrescenta: “Tem piedade de mim”, porque só Deus tem piedade das suas criaturas, como diz o salmista: “As misericórdias do Senhor estendem-se a todas as obras das suas mãos” e assim anunciava a humanidade e a divindade na única pessoa do Salvador. A multidão, porém, não querendo perder nada das instruções de Jesus, repreende-o e manda-o calar, mas este infeliz, temendo que a sua voz fosse abafada pelas queixas do povo, grita ainda mais alto: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim”. Então o Salvador, compadecido, parou, porque o cego não podia segui-lo, e fê-lo aproximar-se de si, mostrando-nos assim como devemos nos comportar em relação aos infelizes.

Diz São Cirilo:

“A oração inspirada por uma fé viva tem o poder de deter Jesus Cristo, que se compraz em ouvir aqueles que o invocam com confiança”

Ele traz este cego até ele como recompensa pelo ardor da sua fé. Que belo exemplo para os governantes da Terra! Não deveriam eles, como o Salvador, trazer os pobres para perto de si, para ouvir as suas queixas e pedidos e atender às suas justas reivindicações? Jesus perguntou-lhe o que queria, não porque não o soubesse, mas para lhe dar a oportunidade de renovar a sua oração e de o fazer desejar cada vez mais a cura que estava disposto a dar-lhe, porque Deus não nos salva contra a nossa vontade ou sem o nosso consentimento. Diz Santo Ambrósio:

“Embora Deus queira a salvação de todos os homens, não os salva a todos, mas apenas aqueles que voltam para ele e o imploram”.

Diz Santo Agostinho:

“Aquele que te criou sem ti, não te justificará sem ti”.

Admiremos aqui a infinita bondade e a extrema humildade do nosso divino Mestre, que não desdenha se deter à voz de um pobre cego, chamá-lo para junto de si e perguntar-lhe com doçura o que deseja. “Senhor”, responde ele, “faz-me ver”. Então Jesus, com aquela voz poderosa que tirou todas as criaturas do nada, disse-lhe: “Vê, a tua fé te salvou”. Ele ficou curado imediatamente e seguiu-o, glorificando a Deus. Uma só palavra bastou para realizar esta cura, querendo o Senhor com ela manifestar o poder da sua divindade e glorificar também a fé ardente e meritória daquele que era objeto do milagre. Diz São Cirilo:

“A fé nos dá a saúde da alma e do corpo, como vemos neste cego que foi curado da sua dupla cegueira, física e espiritual; porque, se a sua mente não tivesse sido iluminada pela graça, não teria proclamado assim a divindade do Salvador”.

Não só foi iluminado interiormente, mas também se tornou uma ocasião para os outros glorificarem o Senhor, por isso o Evangelho acrescenta: “Ao verem isto, as pessoas louvaram a Deus, bendizendo-o pelo milagre que acabava de se realizar aos seus olhos e agradecendo-lhe a cura que tinham obtido”. Deus, de fato, em todas as suas obras, reserva apenas a glória para si, como diz pelo profeta Isaías: “Não darei a minha glória a outrem”, mas todos os benefícios que dela resultam são para as suas criaturas". Diz São Gregório:

“O Salvador fez este milagre para reavivar e fortalecer a fé dos seus apóstolos, que, ainda carnais e imperfeitos, não compreendiam as coisas espirituais”.

Diz São Teófilo:

“Para que a passagem do Salvador não fosse inútil, ele fez no caminho o milagre do cego, dando aos seus discípulos este testemunho, para que que nos esforcemos sempre por fazer coisas úteis e que não haja nada de ocioso em nós”.

Este cego curado por Jesus Cristo no caminho de Jericó é, segundo São Gregório, a imagem de todo o gênero humano. De fato, os homens, pelo pecado do seu primeiro pai, tinham perdido a compreensão das coisas divinas e tinham sido lançados nas trevas da condenação. Deus, movido pela compaixão, reveste-se então da nossa mortalidade, de todas as nossas misérias, e vem restituir a luz e a vista a estes pobres cegos, pois é verdadeiramente cego quem está privado do conhecimento das coisas divinas. Aquele, pois, que reconhece as trevas em que definha e a cegueira espiritual de que padece, clame a Deus, dirija-se a Ele, a exemplo do nosso cego, dizendo-Lhe com a boca e com o coração, e mais ainda com o coração do que com a boca: “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim”. Aqueles que precederam Jesus e que quiseram impedir o cego de gritar, representam-nos a multidão das nossas paixões e dos nossos desejos carnais, que vêm incessantemente atravessar as nossas boas resoluções, perturbar as nossas orações, murmurar à nossa volta, para que Jesus Cristo não ouça a nossa voz e venha, por inspirações salutares e pela luz da sua graça, iluminar-nos espiritualmente. Mas quanto mais obstáculos encontrarmos, tanto mais devemos, como o cego, redobrar os nossos esforços e levantar a voz. Diz São Jerônimo:

“Muitos impedem este infeliz cego de gritar; são as nossas paixões e os demônios juntos que tentam abafar as nossas orações, mas então devemos gritar ainda mais alto, porque quanto mais terrível se torna a guerra, quanto mais se redobram os esforços do inimigo, tanto mais, como Moisés, devemos levantar as mãos ao céu para obter um pronto socorro”.

Diz São Cirilo:

“A multidão queria impedir o cego de gritar, mas os impedimentos só serviram para aumentar a sua coragem. A verdadeira fé resiste a tudo e triunfa sobre todos os obstáculos. Quando se trata de servir a Deus, toda a vergonha deve ser espezinhada”.

Se não se envergonham quando se trata de acumular riquezas, porque havemos enrubescer quando se trata de salvar a nossa alma?

Ao primeiro grito do cego – diz o Evangelho – Jesus passou ao lado dele, mas quando o ouviu gritar pela segunda vez, parou. Do mesmo modo, quando, durante a oração, a nossa mente se preocupa com os vãos prazeres do mundo e se entrega a dissipações e distrações de toda a espécie, Jesus passa sem olhar para nós, mas se, lutando contra nós próprios, perseveramos com coragem, então ele entra no nosso coração e devolve-nos a luz que tínhamos perdido. O Salvador pergunta ao cego o que é que ele quer, embora o saiba. Também Deus não nos quer conceder nada se não o tivermos merecido, por assim dizer, ou pelo menos se não o tivermos pedido com fervor e incessantemente. Pedi, diz-nos Ele, e recebereis, buscai e encontrareis, batei e abrir-se-vos-á. Vemos novamente no pedido deste cego o que deve ser o objetivo principal de todas as nossas orações a Deus: não são os bens, nem os tesouros, nem as honras efêmeras deste mundo, nem os dias longos, nem a vingança dos nossos inimigos, nem outras vantagens temporais de qualquer espécie, que devemos desejar, mas apenas a luz divina que ilumina todo o homem que vem a este mundo, segundo esta frase do divino Mestre: “Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o resto vos será dado como de graça”. A fé é o único caminho que nos pode conduzir a esta luz divina, como foi dito ao cego: “A tua fé te salvou”. Quando ficou curado, o nosso cego seguiu o Salvador e nunca mais o deixou. Do mesmo modo, quanto mais somos iluminados pelas luzes divinas, quanto mais somos cumulados de graças e favores de Deus, tanto mais ardentemente nos devemos dedicar à prática das boas obras e encorajar os outros a seguirem-nos no caminho da virtude. Diz São Gregório:

“Tenhamos sempre os olhos fixos no nosso divino modelo, e esforcemo-nos por seguir as suas pegadas. Ele, o Mestre do céu e o Criador dos anjos, não teve medo de descer ao seio de uma virgem para se revestir da nossa mortalidade e das nossas misérias, quis renunciar a todas as vantagens do mundo e nascer de pais pobres, abraçou o opróbrio e a ignomínia. Foi flagelado, coroado de espinhos e amarrado à cruz, ensinando-nos assim que, se o homem caiu do céu pela sua excessiva afeição às coisas perecíveis, só pode ressuscitar passando pelas amarguras da penitência. Se um Deus sofreu tanto pelos homens, o que é que os homens não hão de sofrer em seu próprio benefício? Se queremos partilhar com o nosso chefe as alegrias e as honras do triunfo, temos de partilhar com ele as dores e as fadigas do combate”.

Esta cura do cego de Jericó pode ser aplicada também a cada um dos pecadores. De fato, o homem que cometeu um pecado mortal perdeu verdadeiramente a luz da inteligência e da razão, está cego no sentido espiritual. Se ele quer voltar ao caminho da verdade, que é o único que o pode conduzir à felicidade eterna, tem que lamentar amargamente das suas faltas, se dirigir a Deus e implorar com lágrimas a graça e a misericórdia, sentar à beira da estrada e pedir esmola. Os transeuntes tentam silenciá-lo. Com efeito, as tentações da carne, o demônio, o mundo e os seus maus hábitos conspiram todos juntos para o desviar dos seus bons propósitos e para o impedir de fazer penitência, mas quanto mais os seus inimigos redobrarem os seus esforços, mais ele deve também redobrar o seu ardor nas suas orações e clamar a Deus, clame então bem alto para que seja ouvido, pois o Senhor está muito longe dele. Diz Hugo de São Vítor:

“No entanto se Deus não se comove com as suas primeiras lágrimas, se não atende aos seus primeiros pedidos, não desanime, não deixe de o implorar com fervor; os grandes dons só se obtêm com grandes esforços”.

Não se deve, porém, presumir dos seus próprios méritos, mas abandonar-se com toda a confiança nos braços deste Pai cheio de ternura e de misericórdia. Então Deus, que a princípio parecia não o ter ouvido, aproximar-se-á dele, restituirá a calma e a paz ao seu coração perturbado, e aí fará a sua morada, dando-lhe a provar a doçura da contemplação. Assim, o pecador não se deixa abater por um desespero fatal, volta sinceramente para Deus, que está sempre pronto a recebê-lo e será salvo.